Vanessa e eu comemoramos nosso aniversário na data do nosso primeiro beijo: 03 de maio de 2006. Estamos juntos há 20 anos! Gosto de lembrar que conversamos umas doze horas até chegarmos a termo. Ela lia uma revista Veja, quando passei em frente à sua loja. Surgiu muito assunto, no outro dia um pouco mais e, então, aconteceu.
Ela falar pelos cotovelos ajuda, mas o fato é que nunca nos faltou assunto. E isso, convenhamos, é coisa rara. Não tem jeito, nossa moqueca tem um tempero a mais. É ela quem sempre lê meus textos antes de todo mundo, revisa e os discute. Mesmo que, às vezes, fique com ciúmes de um personagem que ela pense ser muito autobiográfico. Claro que não é só a convivência, o pele com pele tem um papel importante na nossa caminhada. Mas dessa parte não vou tratar, caro leitor. Lamento.
Há 20 anos, eu dava caronas a ela no cano da minha bicicleta nas sextas-feiras à noite, enquanto as meninas da nossa idade preferiam ser vistas no banco carona de algum rapaz. Na época, não me atinei, mas um amigo que convive conosco desde aquele tempo gosta de me relembrar disso. E também de que ela aceitou acampar uma semana numa praia deserta, em meio a aranhas e comendo miojo, quando terminamos a faculdade. E que ela me acompanha nos passeios de barco e outros programas malucos que eu invento. É, eu tenho sorte.
É claro que com tanto tempo juntos, já conheço bem os seus defeitos. E nesta época em que as vidas no Instagram são todas de plástico, é preciso ter algum talento para voltar ao mundo real. Viver a dois exige dançar com as falhas de quem se ama, compor com suas fraquezas e improvisar na escala dos seus erros.
Não que eu não seja romântico, veja bem. Sou o último dos românticos! Mas gosto desse romance meio canastrão, um pouco Cazuza exagerado e um pouco Pepe Le Gambá. Porque no final de um jantar a luz de velas, sempre tem a louça para lavar.
Muita gente já me perguntou qual o segredo para ter um relacionamento tão duradouro. Desde a amigos até um maluco na rodoviária. Eu gosto de um pensamento que ouvi de um psicanalista, acho que o Gikovate, de que você precisa se casar muitas vezes com a mesma pessoa. Os dois mudam, se tornam novas pessoas, e é preciso que se apaixonem novamente. Mas diria também que essa compreensão do Gikovate é só uma parte dessa noção maior: o amor é mesmo algo canastrão. A gente gosta dele, mesmo sabendo que, no fundo, não é tudo aquilo. Então a gente vai lidando com os erros, com os defeitos e não resiste às suas delícias.
E pior, se apaixonar novamente por uma pessoa costuma ser muito mais difícil do que se apaixonar por uma pessoa nova. Existe a bagagem das faltas que ela cometeu. E ela pesa uma tonelada. Por outro lado, tem ali uma maletinha com pequenos tesouros. Dentre eles, uma foto com os dois comendo uma cumbuca de miojo dentro de uma barraca, enquanto as ondas quebravam fortes lá fora.
Amor não é um assunto que se possa esgotar em poucas linhas assim. Mas, como nesta era de coaches as pessoas gostam de orientações esquemáticas, vou brindar o leitor com uma lista de conselhos para um relacionamento duradouro. Talvez eu os publique como “devocionais” em um livro “Café seu bafo – Como amar mesmo de manhã cedinho”.
20 Passos para passar 20 anos juntos
- Nunca se cansar de apagar lâmpadas em cômodos vazios
- Nunca se cansar de recolher toalhas molhadas pela casa
- Alguém tem que fazer o café quando todo mundo está com sono
- Aprender uma receita aconchegante para dias ruins
- Aprender a gostar da receita preferida de outra pessoa
- Aprenda a gostar do cheiro da pele antes do perfume
- Se acostumar a dormir numa nesga da cama
- Brigar na hora de fechar as contas do mês faz parte
- Amar dividir ovos fritos quando o salário acaba
- Aprender a tratar dores nas costas com massagem
- O vaso e o chuveiro podem ser usados simultaneamente
- Tomar sorvete de domingo à tarde
- Se beijar quando a lua estiver bonita
- Aprender a discutir o relacionamento
- Saber quando parar de discutir o relacionamento
- Se acostumar a ter seus livros rabiscados
- Se acostumar a ter os cantos das páginas dos seus livros dobrados
- Sapatos que dão chulé devem ficar para fora
- Às vezes, concordar com uma reclamação é melhor que apontar uma solução
- Nenhuma coberta, em nenhuma ocasião, será grande o suficiente para os dois
P.S.: Vanessa, meu amor, você não tem bafo de manhã, tá? Essa parte não é autobiográfica.