[Crônica publicada originalmente em marcomilani.medium.com em 25/03/2022]
Meus dois avôs tiveram histórias interessantes. Meu avô paterno, o Orestes, que na verdade é Aristides, renderia um romance histórico sobre a vida campezina que fundou o interior de São Paulo. Foi mais um descendente de imigrantes que deixaram a miséria na Itália para compartilhar a pobreza com os trabalhadores brasileiros. Vendeu sua força de trabalho por décadas nas terras alheias até conseguir se estabelecer na cidade. Só conseguiu seus dois alqueires de terra pouco antes de morrer. Morte, aliás, que foi precedida por mais trabalho, como sempre. Ele era um homem grande e forte que lembrava José Arcadio Buendía e trabalhava a terra como um trator.
Já o meu avô materno, o João, era neto de italianos um pouco menos miseráveis e por isso manteve melhor as raízes e as blasfêmias mais frescas na memória. “Tirar os porco” — pronunciava-se “pórco” — era o suprassumo da emputescência, que se materializava em uma lista imensa de invocações heréticas, como “porco Juda” e, no nível máximo da achincalhação, “porco Dio”. O Vô João, além de ser um blasfemo de carteirinha, renderia um bom livro de crônicas humorísticas.
A família do Vô João não sabia bem se era Gambero, Gambaro, ou Gamba. Todas essas versões existem e foram devidamente reconhecidas por cartorários embriagados. Mas, o que não se discute é que é uma família de Antonios. Toni, Antonio, Toninho e eu, Marco Antonio, sem acento também. Antonios para todos os gostos. E, como disse Antonio Prata, Antonio é filho de anta. E meu avô, que era apenas João — e não Antonio — dizia que “todo João, se não é bobo, é tonto”.
Metade dos meus genes de Professor Pardal — ou Rodrigo Hilbert feio e pobre — vieram dele. Ele se aposentou no ano em que eu nasci, então estava sempre consertando e construindo coisas. E destruindo e reconstruindo, porque ele tinha todo o tempo do mundo. Eu sempre dizia que, no seu próximo aniversário, lhe daria um pedaço de borracha já que tudo o que ele ganhava, ele cortava. Então, na despretensiosa borracha, ele poderia descarregar sua sanha sem dó.
Teve uma vez em que ele reformou a ligação de esgoto da sua casa sem nenhum motivo aparente. Ao terminar, constatou que havia concretado a calçada com várias ferramentas dentro. Outra vez, resolveu subir no telhado para mexer na antena porque a TV estava fora do ar. Ele era maníaco por manter a imagem das TVs impecável e estava sempre ajustando o intrincado sistema telemático de sua casa. Naquele dia, trocou antena, booster e cabos e nada da TV voltar a funcionar. Subiu novamente no telhado, arrancou tudo e jogou, lá de cima, no quintal.
Saiu à rua para matutar um pouco e encontrou o vizinho, que veio lhe interrogar:
– A sua TV está fora do ar também, João? Acho que a cidade está sem sinal.
Só lhe restou baixar a cabeça, subir no telhado de novo e reinstalar todo o equipamento antigo.
Outro interesse, que manteve até os últimos anos de vida, era construir gaiolas e criar canários. Chegou a ganhar troféus por alguns deles e também construía geringonças para mecanizar a criação. Mas, de tempos em tempos, se enchia de tudo e vendia máquinas, gaiolas e canários. Uns meses depois, recomeçava todo o processo.
Mas meu avô tinha temperança. Se arrependida de poucos dos seus erros. Dizia sempre, com ar de sabedoria, que cometeu apenas três erros na vida. Foram todos três aquisições: um Fiat 147, um Fusca 1300 e um papagaio.
O Fiat, ele comprou e levou a um mecânico para trocar as rodas. Mais tarde, lembrou-se de que tinha esquecido algo no carro e voltou para buscar. Encontrou seu veículo já sobre um macaco e constatou que as portas não abriam.
– É assim mesmo — respondeu o mecânico — se uma das rodas do 147 fica mais alta, as portas não abrem.
– Quer dizer que, se eu perder o controle e sair da estrada, fico preso dentro do carro.
– Sim.
– E se o carro pegar fogo, eu morro queimado.
– É…
Assim que o carro ficou pronto, meu avô o vendeu por um preço menor que o pagou e ficou a pé.
O Fusca era um caso à parte. Qualquer um que já tenha tido a oportunidade de pegar estrada com um desses sabe que é um carro para lá de desconfortável para se ficar sentado duas ou três horas. A versão 1300 cilindradas era um carro lento, mesmo para época em que era fabricado.
Vô João conseguiu um emprego de almoxarife do paiol de dinamite — veja bem — da construção da hidrelétrica de Bariri. Na mesma usina, foi galgando posições até se aposentar como operador da eclusa. Mas isso lhe custou muitas viagens no Fusca azul 1300 até Ilha Solteira, para fazer cursos de formação. São 430 quilômetros, que fariam qualquer ter uma síncope ao ver um Fusca azul passar na rua. Imagine a brincadeira do soco no braço.

Já o papagaio foi uma história de novela mexicana. Trouxe-o para casa e ele logo se afeiçoou a meu tio, então um garotinho juvenil. Acontece que o papagaio, um dia voou até o quintal do vizinho, que o raptou e manteve em cativeiro. De um lado, meu tio ficou semanas a fio choroso e febril. Do outro, o papagaio, que o chamava toda tarde:
– Wilson, Wilson.
O vizinho, alegava que nada sabia. Mas loro era destemido e conseguiu fugir de seu cativeiro e voltar para casa. Entretanto, os anos se passaram e meu tio teve uma filha. O papagaio, num acesso de ciúmes sem fim, passou a sangrar os dedos e as orelhas de todo mundo com seu bico e precisou ser levado para outra casa.
Esse mesmo tio conta que, certa feita, Vô João imaginou uma gaiola que começava com uma base quadrada e evoluía para um formato cilíndrico até terminar em uma abóbada. Cortou madeira, e comprou arames e tirou um sábado para isso.
Lá pela tarde, já estava passando os arames pelos furinhos das estruturas de madeira. Seus cálculos, no entanto, nunca davam certo e os arames se embaralhavam mais acima. Antes de o sol se pôr, jogou a gaiola no chão para saltar com os dois pés sobre o fruto de um dia de trabalho. A meu tio, só restava olhar com aflição enquanto imaginava a gaiola se vingando de seu criador e enfiando os arames em sua perna no ato de um salto malfadado.
Meses depois, recomeçou a empreitada e conseguiu concluí-la. Envernizou tudo e pendurou a gaiola para secar. José Cava, que admirava muito a boa marcenaria, passou pela rua e a viu. Bateu palmas para chamar e perguntou o quanto ele queria pela gaiola. Sem interesse em vender, meu avô estipulou um preço que considerava absurdo. E qual não foi a sua surpresa ao ver seu interlocutor tirando todo o dinheiro da carteira no ato.
Anos atrás, numa das primeiras vezes que me sentei para conversar com Cavinha sobre o Patrimônio Histórico de Bariri, ele começou a conversa:
– Gostava muito de seu avô. Comprei uma gaiola maravilhosa dele, que até hoje tenho guardada.
É. De bobo ou tonto, o Vô João não tinha nada. Acho que ele só dava uma de João sem braço.