Zerei a vida aos 33

A crônica trata do livro que publiquei com a Vanessa, “Raízes da culinária baririense” e é uma reflexão sobre minha relação com a ancestralidade.

[Cônica publicada originalmente em marcomilani.medium.com em 1º de junho 2022.

Naquele ano, fiz o exercício de publicar crônicas semanais no perfil do medium.com e nas redes sociais. Foi uma experiência muito profícua. Eu tinha a intenção de publicar um livro, ao final, intitulado “O Tiozão de trinta anos”. As crônicas carregam muita reflexão sobre a experiência de amadurecer na casa dos trinta. Elas foram, além de um exercício de escrita um exercício de reflexão e de elaboração das experiências que vivia. Consolidei, naquele período, um sentimento que carrego até hoje (poucos dias depois de completar 37): satisfação pela maturidade que adquiro, ainda que a velocidade com que o numeral cresce me surpreenda.]

A semana que passou foi tão louca que eu nem consegui publicar a minha crônica. Fiz trinta e três anos e mal consegui comemorar. No final de semana quando eu, habitualmente colo os parágrafos aqui, eu estava a bordo de um veleirinho resgatado do fundo do rio.

O vento tensionando os panos e eu puxando a corda com todas os músculos do meu corpo, os pés firmes no costado sentiam que o barco estava tão inclinado que a água já começava a entrar. “Vou tirar um pouco do vento para você conseguir cassar mais o cabo.”. Falou o capitão, ao leme.

A água que molhava minhas meias, o leito do rio que desafiávamos eram os mesmos que o Vô João ajudou a domar à guisa de concreto e dinamite. As corredeiras que deram os nomes às nossas cidades cederam seu lugar aquele lago, grande o bastante para se formarem ondas que estouravam na proa, borrifando nossos rostos.

Já havíamos cruzado a linha de chegada, mas não queríamos deixar passar um vento daqueles, que não sopra todos os dias no Tietê. Não pelas nossas velas. Isso é algo que não é tão comum por aqui, gostar de se aventurar na água. Quem tem o pé vermelho da terra rossa costuma ter medo de tê-lo fora dela. O Vô João, que me levava pescar no seu bote, morria de medo de cair na água.

Eu, de colete alaranjado e Antonio Carlos ao leme a bordo de seu Aurora, vencendo a regata no Clube Água Nova em São Manuel.

Há uns dias, seu irmão, o Tio Toninho, nos procurou. “Nossa cidadania saiu, agora está mais fácil para vocês”. Eu nunca considerei reconhecer minha cidadania italiana. Não tinha dinheiro para viajar à Europa e a árvore genealógica dos Milani se perdeu, quando meu outro avô virou órfão.

A Vanessa e eu escrevemos um livro, “Raízes da culinária baririense”, que deve ser lançado está semana. E todo mundo está nos dizendo “Mas vocês fizeram um livro de culinária que não tem receitas?”. Não é exatamente um livro de culinária, é um livro sobre história. Sobre como o que se come em Bariri conta um pouco dos braços que construíram esta cidade.

Enquanto o livro estava em revisão, resolvi finalmente olhar os documentos que haviam me enviado. Na certidão de casamento do meu tataravô consta: nascido na província de Veneza; de profissão, lavrador. Todas as testemunhas, colonos. O cartorário assinou, “a rogo do noivo, que não sabe escrever”. Isso ficou reverberando em mim.

Ecos do livro que escrevemos. Na escrita, entrevistei meu pai. Meu avô foi colono e meeiro, na época em que meu pai nasceu. Correram terras alheias em busca de uma terra para si, a promessa que se fazia na Itália. Possibilidade esta, duramente combatida pelos fazendeiros do café, como mostraram as pesquisas da Vanessa para o livro. Precisavam de novos braços famintos para seus negócios, pois não pagariam para que braços negros abanassem seu café.

Os Milani nunca conseguiram suas terras, pois metade ou um terço do que colhiam ficavam para quem possuía a escritura. Só meu avô, ao final da vida, que pode comprar dois alqueires. Ali, ele fez o que melhor sabia fazer: roçar o tempo que lhe restava. Morreu após um dia de trabalho.

Colonos, meeiros. Meu pai me contou, enquanto eu escrevia: “A vó fazia pão toda semana.”. Pães gigantescos, bem me lembro. Só não fez no ano em que o dono da terra vendeu toda a produção e não lhes deu a parte que era de direto. Isso meu pai não me contou. Era minha mãe que me explicava, quando eu era criança, que é por isso que ele não gostava de sardinha. Foi uma das poucas coisas que puderam pendurar na conta da venda até a próxima safra. “Quando a casa não tinha forno, meu pai fazia um, de tijolo e barro de piçarra. Depois, fui eu que comecei a fazer.”. Isso ele me contou.

Essa semana, conseguimos comprar um forno elétrico. Desses que ficam embutidos no armário planejado. Compramos parcelado, só depois que terminamos de pagar o armário, mas tem convecção e dezenas de programas para assar pizzas, carnes e pães. Até serve de estufa para fazer crescer a massa.

Um amigo brincou: “Você zerou a vida. Já teve um filho, plantou árvore e escreveu um livro.”. Nunca liguei muito para essa coisa de ascendência italiana. Me parecia coisa que os brasileiros, sobretudo os paulistas, usavam para parecer mais importantes que os outros. Até um ano em que vi a Iara enxugando um prato de sopa com um pedaço de pão que eu havia feito. “Não tem como fugir, descendemos de italianos.”.

Eu e Iara preparando massa de macarrão.

A Nona Regina Gambero — tivemos de retificar os documentos para Gambaro — desenganada pelos médicos, pediu polenta e carne de porco frita na banha. Seus dedos arqueados limpando a gordura do prato com um taio de polenta. A vó Oneide Milani, que falava caroça ao invés de carroça e chamava os espertalhões de furbo, conseguiu reunir poucas vezes as famílias dos sete filhos em volta de uma enorme mesa no quintal. Serviu macarronada, arroz, feijão e frango assado. Vô Milani se escondia atrás de seu gigantesco prato de arroz integral feito com banha, que dava mais sustância.

Nosso livro é sobre isso. As receitas, mais que bem-vindas, necessárias, terão de vir depois. O que foi escrito agora é sobre nossas raízes, escondidas sob a poeira do tempo, mas que brotam nos nossos pratos.

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