Não há mal que dure para sempre

Uma reflexão sobre o sofrimento humano em guerras atuais, o impacto nas crianças e a importância de nunca relativizar a dignidade.

Crônica publicada originalmente em abril de 2024 em marcomilani.medium.com

Há quatro meses fiz uma publicação com a imagem que acompanha esta crônica. Só hoje voltei para relê-la. Como todos nós, fui arrastado pelas timelines da vida.

Desde então, não pensara mais nas crianças da Palestina. Hoje, me lembrei delas e fui reler. Me entristeci profundamente ao me dar conta que a situação só fez piorar. Bilhões de dólares queimam como o fósforo branco que consome a carne humana em um átimo.

Eu tinha vinte e dois anos quanto descobri um novo nível de tristeza. Visitei os desabrigados de bairro Pinheirinho, que me puxavam pelo braço e me pediam “Conte nossa história, os jornais não vão mostrar”. Escrevi uma crônica meio denúncia, meio desabafo chamada “Lágrimas amarradas”. Era assim que os desabrigados chamavam esse sentimento de não ter mais sal para chorar.

Quatro anos depois, conheci a dor das crianças que perdiam tudo nas enchentes da periferia de Atibaia. Coleções de figurinhas, bichinhos de pelúcia e cadernos de escola. Todos os pequenos tesouros que servem de lastro à inocência.

Mas imagino, e apenas posso imaginar, que nada disso se compara à dor das crianças que não sabem quando a próxima bomba vai cair. Ou quando vão tomar o próximo copo de água. E quem dirá a dor dos pais dessas crianças ao negar água e comida as suas crias porque simplesmente não há nada senão escombros?

E minha consternação só aumenta. Não diria que o genocídio na Palestina é evitável, como eram as enchentes que conheci. E nem que, além de ser evitável, mobiliza-se um grande esforço para que a desgraça ocorra, como o que se passou no Pinheirinho.

É muito pior. Move-se mundos e fundos para matar crianças de sede, de fome, de fogo e de ódio. Bilhões de dólares queimam como o fósforo branco que consome a carne num átimo. Na Ucrânia ou na Palestina.

Por que adultos gastam rios de dinheiro — muitas piscinas, como diria minha filha — para queimar a carne de crianças? Para minguar a carne de crianças? Para secá-la como doce caído no asfalto?

Compreendo a ganância e a intolerância, embora as repudie. Mas e quanto a isso? Não há um momento em que o soldado apenas joga a bandoleira sobre o ombro e volta para casa? O momento em que percebe que já matou o bastante, que tem o domínio sobre tudo e que seus ódios mais infantis já gozaram no lume de seu fuzil?

O soldado talvez. Talvez por isso eles venham denunciando o horror de seu trabalho no Oriente Médio. Talvez por isso o piloto tenha ateado fogo ao próprio corpo, imitando o monge vietnamita, ainda que tão longe da paz interior.

Mas os palacianos podem nunca se cansar de matar. Porque a caneta é leve e o mal se banaliza fácil atrás de uma mesa. Netanyahu queima a carne de crianças e vai queimando a alegria do mundo na ânsia de se safar, como um cão que travará sua mandíbula até que as pauladas o matem. Para se ver livre de seus escândalos de corrupção, corrói a humanidade e o pouco que dela restou no ocaso do século XX.

“Ah, mas há o Hamas, mas há terroristas, mas há o fundamentalismo com seus costumes primitivos.”. Não! Não há mal que justifique outro igual. Aliás, não há mal que justifique outro ainda pior. Não há que se defender o horror. Não há que relaxar um minuto na defesa da dignidade humana. Não se pode esquecer de que lado se está.

Mesmo porque não há mal que dure para sempre. Um dia, ele acaba e a história cobra o preço do malfeito. Nessas horas, é melhor estar do lado de quem perdeu.

Haverá um dia, num campo de refugiados, em que as poucas crianças palestinas que restarem rirão atrás de uma bola. O tempo tudo cura, até o ódio que se ensina de berço a um bebê desterrado. E a Terra Santa se tornará novamente alegre, não porque é santa, mas porque será coberta por muitas camadas de pó. E crescerão novamente oliveiras e se tornarão novamente centenárias. E quem sabe assim, os filhos dos filhos dos filhos do generais possam finalmente dormir em paz.

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