A neblina da guerra

Entenda como a neblina da guerra se manifesta na era digital e influencia conflitos, percepções e relações na sociedade atual.

Crônica publicada originalmente em fevereiro de 2025 em marcomilani.medium.com

Foi numa tarde, talvez de 2010, que a professora Célia Camargo nos propôs um encontro para assistir ao documentário com esse mesmo título. As turmas da faculdade assistiam às aulas de manhã ou à noite, mesmo assim a sala lotou.

Por duas horas assistimos às peripécias de um estadunidense chamado Robert Macnamara, que as contava sem enrubescer. Golpes de estado e guerras que alimentaram a dita Guerra Fria que deixariam Maquiavel transtornado. Ao final seu cinismo aqueceu o debate.

Há quem diga que a Guerra Fria nunca acabou ou que vivemos sua segunda versão. Mas creio que a expressão “neblina da guerra” nunca fez tanto sentido.

Nunca antes foi tão difícil saber quem são nossos reais inimigos. O vizinho, a colega de trabalho transexual, os milionários ou seus aplicativos? O presidente, o ministro ou o ladrão de galinha?

Sejamos francos. Todos estamos viciados nas redes sociais, que são nosso principal meio de informação e entretenimento. Ah que saudades do tempo em que repudiar a Globo era tão simples!

A principal função e o principal meio dessas redes, que outrora foram meio de encontrar antigos colegas de escola, é agenciar nossa raiva. Que medo de encontrar um antigo colega e o descobrir transmutado em um ser monstruoso!

Tudo o que se odeia dá mais likes e os aspirantes a celebridades sabem bem disso. Antes odiado do que esquecido. Se minha indecência já não choca, que tal apelar ao incesto? Que tal negar tudo que fiz, me entregar a Deus e depois me desconverter? Atenção à nova maldade que estão fazendo por aí. Sempre tem uma.

E com tanta gente nos dizendo a quem odiar, sendo odioso ou simplesmente odiando um novo alguém, já não sabemos mais a quem odiar.

Não se engane o leitor pensando que irei eu me entregar ao relativismo. Os inimigos ainda são os mesmos. Bilionários ainda estão contra o resto do mundo, países poderosos ainda tentam eliminar Estados mais fracos e suas crianças famintas. Os ditos normais ainda perseguem os dissonantes.

O que então mudou? Sob a neblina da guerra, a batalha não cessa. Sob a fumaça da pólvora, todos tem cor de lama e sangue. E os vilões, esses, de longe lançam seus petardos, enquanto nos matamos a estocadas de baionetas.

Sob a neblina da guerra, nossa visão turva é nossa maior fraqueza e o maior trunfo daqueles que compram companhias ao som dos canhões e as vendem ao som dos clarins.

É tempo para se ter calma, meus amigos. Se nos querem dispersos, sejamos focados. Se nos querem irritados, sejamos calmos. Se nos querem amedrontados, sejamos corajosos. Dancemos, amemos, façamos arte e literatura, mesmo que criem robôs para fazê-lo. Não nos entregaremos à mesquinharia e ao egocentrismo dos coaches.

Que os senhores da guerra não nos assustem. Porque os impérios vêm e vão. Conhecer a história é como comer salada: faz bem e não ocupa espaço. Nossos filhos amarão a natureza mesmo sob o Aquecimento Global. E lembrarão que sorrimos para a foto, mesmo nos tempos mais sombrios.

O amor vence e o amor perde. Tantos humilhados nunca encontrão a exaltação nesta vida. Mas a Terra continuará, redonda, a girar. E quando a neblina da guerra se dissipar, todos saberão quem não atirou a pedra (mesmo quando os apedrejadores foram considerados heróis). Lutemos. Mas sem esquecer do porquê.

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