A Bordinha do contrafilé

As crônicas que publico no Jornal Noticiantes, que circula pela região de Bariri, passeiam por temas como história local, cultura alimentar, literatura e educação. Quase sempre, tudo junto.

[Crônica publicada no jornal Noticiantes em 03/07/2026]

Eu e minha avó Nilva  (a que faz o melhor bife do mundo) no lançamento de Quando o mar canta em Bariri.

Por estes dias, comendo um pão com bife, decidi que a carne mais saborosa do mundo é o contrafilé. Não todo o contrafilé, nem sequer a parte mais externa do corte, que os franceses chamam noix (que se pronuncia “noá”, mas nós já abrasileiramos como “noíquis”).

Não, a parte mais gostosa do contrafilé é, quando cortado em bifes, aqueles pedacinhos bordeados por gordura, que se soltam facilmente. Aquela é a carne mais saborosa do mundo. E, vejam bem, eu aprecio um bom churrasco de picanha ou um filet au poivre, mas aquele retalhinho do contra…

Pensando bem, pode ser que minha opinião tenha sido induzida. Me lembro que minha avó comprava os bifes de contra e os preparava martelando-os e retirando os cantos. O que restava era um quase-círculo de pura carne macia, que ia repousar no tempero. Por mim, não seria necessário, mas alguns netos não gostavam da gordura.

Os pequenos retalhinhos, justamente AQUELA partezinha, eram todos guardados em separado e refogados nos dias em que os netos mais frescos não estavam. Aquilo era divino. Que maciez, que suculência, que sabor! Se Deus quis nos privar das delícias do Éden, esqueceu dessa parte.

As memórias de infância têm um poder incrível para formar nosso paladar. Qual não foi minha surpresa em saber que meus colegas de faculdade paulistanos guardavam o mesmo tipo de memória a respeito de um McLanche? Confesso que comi apenas duas vezes num McDonalds: uma vez em que me decepcionei e outra vez em que levei minha filha para se decepcionar. Naturalmente, já havia cuidado que ela houvesse formado o paladar com os x-alguma coisa de nossa terra.

É assim, de pai para filho que se forma a nossa cultura. Os pequenos hábitos confortáveis que sobrevivem no seio das famílias, ou em comunidade, se perpetuam e se consolidam. Se expandem ou se confinam em pequenos círculos. E os hábitos alimentares são a parte de nossa cultura mais interessante nesse sentido porque são perpetuados mesmo que não sejam reconhecidos como “cultura”. São necessários muitos brinquedinhos de brinde para que sanduíches terríveis se tornem uma boa lembrança. E no final, será que superam as comidas das nossas avós?

De qualquer forma, fica aqui a sugestão ao leitor: degustar as bordinhas do bife de contrafilé. Se temperado no dia anterior com cheiro-verde, cebola e alho, ainda melhor (não acreditem nos chefs franceses que dizem que só se salga a carne na hora). Quem for dileto como minha avozinha, pode também desbastar os bifes anteriormente e fritar só as bordinhas depois. Mas, por favor, não contem aos açougueiros. Vai que algum deles inventa de vender os retalhos mais caro!

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